0004. Os Vampiros (1915)

(Les Vampires)

          O lendário filme em episódios de Louis Feuillade é considerado um divisor de águas, um precursor no uso da profundidade de campo como recurso estético, posteriormente aprimorado por Jean Renoir e Orson Welles, e um parente próximo do movimento surrealista; no entanto, ele está mais relacionado ao desenvolvimento do gênero thriller. Segmentado em 10 partes vagamente interligadas cujos finais carecem de ganchos para a história seguinte e que variam muito em duração, além de terem sido lançadas com intervalos irregulares, Os vampiros é algo entre uma série de filmes e um filme em episódios. A trama mirabolante e muitas vezes inconsistente concentra-se em uma exuberante gangue de criminosos parisienses, os Vampiros, e seu destemido oponente, o repórter Philippe Guérande (Edouard Mathé).
          Os Vampiros, mestres do disfarce que geralmente usam roupas pretas colantes durante seus crimes, são comandados por quatro sucessivos “Mestres Vampiros”, que são assassinados um a um e contam com a fidelidade servil da vampiresca Irma Vep (cujo nome é um anagrama de Vampire), coração e alma não só dos Vampiros como do próprio filme. Interpretada com voluptuosa vitalidade por Musidora, papel que lhe
rendeu o estrelato, Irma é a mais atraente personagem do filme, superando com folgas o insípido herói Guérande e seu exagerado e cômico camarada Mazamette (Marcel Lévesque). O carisma dela vai além do tema maniqueísta do filme e contribui para um tom de certa forma mais amoral, reforçado pela maneira como os mocinhos e os bandidos muitas vezes se valem dos mesmos métodos ilícitos e pelo perturbador
massacre dos Vampiros no fim.
          De forma semelhante à história de detetive e ao thriller de casa assombrada, Os vampiros cria um mundo aparentemente rígido em sua ordem burguesa, ao mesmo tempo que o sabota. Os pisos e paredes grossos de cada château e hotel tornam-se ocos com alçapões e passagens secretas. Enormes lareiras servem de acesso a assassinos e ladrões que fogem pelos telhados de Paris e sobem e descem calhas como macacos. Táxis correm com intrusos nos seus tetos e revelam fundos falsos para ejetar fugitivos em convenientes bueiros. Num determinado momento, o herói coloca inocentemente a cabeça para fora da janela apenas para ser laçado pelo pescoço, puxado para a rua, enfiado dentro de um grande cesto e levado
embora por um táxi antes de poder gritar “Irma Vep!”. Em outra cena, uma parede com uma lareira se abre para regurgitar um enorme canhão, que desliza até a janela e atira projéteis em um cabaré próximo.
        Reforçando a atmosfera de tênue estabilidade, a trama é construída em torno de prodigiosas reviravoltas, envolvendo capciosas aparições em ambos os lados da lei: personagens “mortos” voltam à vida, pilares da sociedade (um padre, um juiz e um policial) provam ser Vampiros e Vampiros se mostram agentes da lei disfarçados. É a habilidade de Feuillade de criar, em grande e imaginativa escala, um mundo duplo – ao mesmo tempo concreto e onírico, familiar e emocionantemente estranho – que é essencial à evolução do gênero thriller e faz dele um importante pioneiro da sua forma.
Escrito por Martin Rubin


FRANÇA (Gaumont) 440 min. Mudo P&B
Direção: Louis Feuillade
Roteiro: Louis Feuillade
Música: Robert Israel
Elenco: Musidora, Edouard Mathé, Marcel Lévesque, Jean Aymé, Fernand Herrmann, Stacia Napierkowsk




0003. O Nascimento de uma Nação (1915)

(The Birth of a Nation)


          Ao mesmo tempo um dos mais reverenciados e repudiados filmes já feitos, O nascimento de uma nação, de D. W. Grifith, é importante pelos mesmos motivos que inspiram essas duas reações opostas. Na verdade, raras vezes um filme mereceu com tanta justiça louvor e desprezo, o que, de várias formas, aumenta o valor dele não só nos anais do cinema, mas também como um artefato histórico fundamental (que alguns chamariam de relíquia).
          Embora o filme seja baseado na peça explicitamente racista de Thomas Dixon The Clansman: An Historical Romance of the Ku Klux Klan, muitos relatos afirmam que Griffith era indiferente ao teor racista do tema central. O grau de cumplicidade do diretor ao veicular sua mensagem infame é motivo de discussão há quase um século. No entanto, não há controvérsias quanto aos méritos técnicos e artísticos da obra. Griffith estava, como de costume, mais interessado nas possibilidades do meio do que na mensagem e, nesse âmbito, ele estabelece os padrões da Hollywood moderna.
          O nascimento de uma nação foi, de forma muito clara, o primeiro épico histórico já feito, provando que, mesmo na era do cinema mudo, as platéias estavam dispostas a assistir a uma história de mais de três horas. Porém, com suas inúmeras inovações artísticas, Griffith essencialmente criou a linguagem cinematográfica contemporânea e, embora alguns elementos de O nascimento de uma nação possam parecer datados diante dos padrões atuais, praticamente todos os filmes lhe são devedores de alguma maneira. Griffith introduziu o uso de closes dramáticos, travelings e outros significativos movimentos de câmera: ação paralela, alternância de seqüências e outras técnicas de montagem; e até mesmo a primeira trilha sonora orquestrada. É uma pena que todos esses elementos inovadores estivessem relacionados a uma história de valor tão duvidoso.
          A primeira metade do filme começa antes da Guerra Civil, explicando a introdução da escravidão na América antes do início da ação. Duas famílias, os Stonemans, do Norte, e os Camerons, do Sul, são apresentadas. A história é contada através dessas duas famílias e, muitas vezes, de seus criados, sintetizando os piores estereótipos raciais. À medida que a nação é dilacerada pela guerra, os escravos e os simpatizantes dos abolicionistas são vistos como a força destrutiva por trás de tudo.
          O racismo do filme piora ainda mais na segunda metade, que se passa durante a reconstrução e retrata a ascensão da Ku Klux Klan, cujos membros são apresentados como os supostos heróis da película. O fato de Griffith ter introduzido uma história de amor no meio desta recriação de uma guerra racial é extremamente audacioso: uma escolha ao mesmo tempo emocionante e perturbadora.
          O nascimento de uma nação é sem dúvida uma poderosa propaganda, muito embora sua mensagem política seja de revirar o estômago. Apenas a puritana Ku Klux Klan pode manter a unidade da nação, é o que o filme parece dizer, de modo que não é de surpreender que, mesmo na sua época, o filme tenha sido visto com indignação. Recebeu protestos da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês), gerou manifestações e, posteriormente, forçou o próprio Griffith a responder às críticas com seu ainda mais ambicioso Intolerância (1916). Ainda assim, o fato de O nascimento de uma nação continuar sendo respeitado e estudado até os dias de hoje – apesar do seu tema – revela sua duradoura importância.
Por Joshua Klein

EUA (D. W. Griffith & Epoch) 190 min. Mudo P&B
Direção: D. W. Griffith
Produção: D. W. Griffith
Roteiro: Frank E. Woods, D. W. Griffith, baseado nos livros The Clansman: An Historical Romance of the Ku Klux Klan e The Leopard's Spots e na peça The Clansman, de Thomas F. Dixon Jr.
Fotografia: G. W. Bitzer
Música: Joseph Carl Brell, D. W. Griffith
Elenco: Lillian Gish, Mae Marsh, Henry B. Waithall, Miriam Cooper, Mary Alden, Ralph Lewis, George Siegmann, Walter Long, Robert Harron, Wallace Reid, Joseph Henabery, Elmer Clifton, Josephine Crowell, Spottiswoode Aitken, George Beranger



0002. O Grande Roubo do Trem (1903)

(The Great Train Robbery)


          O grande roubo do trem é amplamente considerado o primeiro faroeste já feito, iniciando o que se tornaria, dentro de poucos anos, o gênero mais popular de cinema nos Estados Unidos. Produzido pela Edison Company em novembro de 1903, O grande roubo do trem foi o filme mais bem-sucedido comercialmente do período pré-Griffith do cinema americano e gerou inúmeras imitações.
          O que torna o filme de Edwin S. Porter excepcional é seu grau de sofisticação narrativa, se levarmos em conta a época em que foi feito. Existem mais de uma dúzia de cenas distintas, cada qual aprofundando mais o enredo. Na cena inicial, dois assaltantes mascarados obrigam um telegrafista a enviar uma mensagem falsa para que o trem faça uma parada imprevista. Os ladrões entram no vagão do correio e, depois de uma briga, abrem o cofre. Na próxima cena, dois assaltantes subjugam o maquinista e o foguista do trem e jogam um deles para fora. Em seguida eles param a locomotiva e rendem os passageiros. Um deles tenta fugir e leva um tiro. Então os assaltantes escapam a bordo da locomotiva e, na cena seguinte, os vemos montar em cavalos e fugir. Enquanto isso o telegrafista do trem envia uma mensagem pedindo ajuda. Em um saloon, um recém-chegado é forçado a dançar sob uma saraivada de tiros, porém, quando a mensagem chega, todos pegam seus rifles e saem. Corte para o bando sendo perseguido por uma turba. Há um tiroteio e os assaltantes são mortos.
          Existe um plano extra, o mais conhecido do filme, mostrando um dos ladrões atirando diretamente na tela. Ao que parece, esse plano algumas vezes era mostrado no começo da película e outras, no fim. De qualquer forma, dava ao espectador a impressão de estar bem na linha de fogo.
          Um dos atores de O grande roubo do trem era G. M. Anderson (seu nome verdadeiro era Max Aronson). Entre outros papéis, ele interpretou o passageiro que leva um tiro. Anderson logo se tornaria o primeiro astro do faroeste, aparecendo como Bronco Billy em mais de 100 filmes a partir de 1907.
          Anos mais tarde, houve quem contestasse a afirmação de que O grande roubo do trem fosse o primeiro faroeste já feito, alegando ou que não foi o primeiro, ou que não era um faroeste. Sem dúvida houve filmes anteriores que faziam uso do tema, como Cripple Creek Bar-Room Scene (1899), de Thomas Edison, porém eles não possuem a unidade narrativa do filme de Porter. Pode-se afirmar também que suas raízes se encontram tanto em peças de teatro que possuíam cenas espetaculares em ferrovias como em outros filmes sobre roubos audaciosos que não pertenciam ao gênero. Tampouco se pode sustentar que ele seja um verdadeiro faroeste tendo por base suas locações autênticas, uma vez que O grande roubo do trem foi filmado na ferrovia Delaware-Lackawanna, em Nova Jersey. No entanto, desde os tempos de Jesse James roubos de trem fazem parte da mitologia deste tipo de filme, e outros elementos simbólicos como revólveres de seis tiros, chapéus de caubói e cavalos dão ao filme uma genuína atmosfera de faroeste.
Escrito por Edward Buscombe


EUA (Edison) 12 min. Mudo P&B (colorido à mão)
Direção: Edwin S. Porter
Roteiro: Scott Marble, Edwin S. Porter
Fotografia: Edwin S. Porter, Blair Smith
Elenco: A. C. Abadie, Gilbert M. "Bronco Billy" Anderson, George Barnes, Walter Cameron, Frank Hanaway, Morgan Jones, Tom London, Marie Murray, Mary Snow



0001. Viagem à Lua (1902)

(Le voyage dans la lune)


          Quando pensamos em Viagem à Lua, nossa mente é logo tomada pela idéia inicial e mítica de que, nos seus primórdios, o cinema era uma arte cujas "regras" eram estabelecidas durante o próprio processo de produção. Este filme francês foi lançado em 1902 e representa uma revolução para a época, dada sua duração (aproximadamente 14 minutos), se comparado aos mais comuns curtas-metragens de dois minutos produzidos no começo do século passado...
          Viagem à Lua reflete diretamente a personalidade histriônica do seu diretor, George Méliès, cujo passado de ator de teatro e mágico influencia a produção do filme. A obra faz corajosas experiências com algumas das mais famosas técnicas cinematográficas, como superposições, fusões e práticas de montagem que seriam amplamente utilizadas no futuro. Apesar da simplicidade dos seus efeitos especiais, o filme costuma ser considerado o primeiro exemplo de cinema de ficção científica. Ele apresenta muitos elementos característicos do gênero – uma espaçonave, a descoberta de uma nova fronteira – e estabelece a maioria de suas convenções.
          O filme começa com um congresso científico no qual o professor Barbenfouillis (interpretado pelo próprio Méliès) tenta convencer seus colegas a participarem de uma viagem de exploração à Lua. Assim que seu plano é aceito, a expedição é organizada e os cientistas são enviados ao satélite natural em uma espaçonave. A nave em forma de míssil aterrissa no olho direito da Lua, que é representada como um ser antropomórfico. Uma vez na superfície dela, os cientistas logo encontram habitantes hostis, os selenitas, que os levam ao rei. Depois de descobrirem que os inimigos somem em uma nuvem de fumaça ao simples toque de um guarda-chuva, os franceses conseguem escapar e retornar à Terra. Eles caem no oceano e exploram suas profundezas até serem finalmente resgatados e recebidos em Paris como heróis.
          Aqui, Méliès cria um filme que merece um lugar de destaque entre os ícones da história do cinema mundial. Apesar do seu estilo surreal, Viagem à Lua é divertido e inovador, conseguindo combinar os truques do teatro com as infinitas possibilidades da mídia cinematográfica. Méliès, o mágico, era mais um maestro do que um diretor, também participando como roteirista, ator, produtor, cenógrafo, figurinista e fotógrafo, criando efeitos especiais que foram considerados espetaculares à época. Este primeiro filme de ficção científica é imperdível para aqueles interessados na origem das convenções que posteriormente influenciaram todo o gênero e seus mais famosos registros.
          De modo mais geral, Viagem à Lua também pode ser considerado o filme que estabelece a principal diferença entre ficção e não ficção cinematográfica. Em um tempo em que o cinema retratava, na maioria das vezes, a vida cotidiana (como nos filmes dos irmãos Lumière, no final do século XIX), Méliès conseguiu oferecer uma fantasia que almejava o entretenimento puro e simples. Ele abriu as portas para os cineastas do futuro expressando visualmente sua criatividade de maneira completamente alheia aos filmes da época.
Escrito por Chiara Ferrari.


FRANÇA (Star) 14 min. Mudo P&B
Direção: George Mélliès
Produção: George Mélliès
Roteiro: George Mélliès, baseado no livro Viagem à Lua, de Júlio Verne
Fotografia: Michaut, Lucien Tainguy
Elenco: Victor André, Bleuette Bernon, Brunnet, Jeanne d'Alcy, Henri Delannoy, Depierre, Farjaut, Kelm, George Mélliès