0003. O Nascimento de uma Nação (1915)

(The Birth of a Nation)


          Ao mesmo tempo um dos mais reverenciados e repudiados filmes já feitos, O nascimento de uma nação, de D. W. Grifith, é importante pelos mesmos motivos que inspiram essas duas reações opostas. Na verdade, raras vezes um filme mereceu com tanta justiça louvor e desprezo, o que, de várias formas, aumenta o valor dele não só nos anais do cinema, mas também como um artefato histórico fundamental (que alguns chamariam de relíquia).
          Embora o filme seja baseado na peça explicitamente racista de Thomas Dixon The Clansman: An Historical Romance of the Ku Klux Klan, muitos relatos afirmam que Griffith era indiferente ao teor racista do tema central. O grau de cumplicidade do diretor ao veicular sua mensagem infame é motivo de discussão há quase um século. No entanto, não há controvérsias quanto aos méritos técnicos e artísticos da obra. Griffith estava, como de costume, mais interessado nas possibilidades do meio do que na mensagem e, nesse âmbito, ele estabelece os padrões da Hollywood moderna.
          O nascimento de uma nação foi, de forma muito clara, o primeiro épico histórico já feito, provando que, mesmo na era do cinema mudo, as platéias estavam dispostas a assistir a uma história de mais de três horas. Porém, com suas inúmeras inovações artísticas, Griffith essencialmente criou a linguagem cinematográfica contemporânea e, embora alguns elementos de O nascimento de uma nação possam parecer datados diante dos padrões atuais, praticamente todos os filmes lhe são devedores de alguma maneira. Griffith introduziu o uso de closes dramáticos, travelings e outros significativos movimentos de câmera: ação paralela, alternância de seqüências e outras técnicas de montagem; e até mesmo a primeira trilha sonora orquestrada. É uma pena que todos esses elementos inovadores estivessem relacionados a uma história de valor tão duvidoso.
          A primeira metade do filme começa antes da Guerra Civil, explicando a introdução da escravidão na América antes do início da ação. Duas famílias, os Stonemans, do Norte, e os Camerons, do Sul, são apresentadas. A história é contada através dessas duas famílias e, muitas vezes, de seus criados, sintetizando os piores estereótipos raciais. À medida que a nação é dilacerada pela guerra, os escravos e os simpatizantes dos abolicionistas são vistos como a força destrutiva por trás de tudo.
          O racismo do filme piora ainda mais na segunda metade, que se passa durante a reconstrução e retrata a ascensão da Ku Klux Klan, cujos membros são apresentados como os supostos heróis da película. O fato de Griffith ter introduzido uma história de amor no meio desta recriação de uma guerra racial é extremamente audacioso: uma escolha ao mesmo tempo emocionante e perturbadora.
          O nascimento de uma nação é sem dúvida uma poderosa propaganda, muito embora sua mensagem política seja de revirar o estômago. Apenas a puritana Ku Klux Klan pode manter a unidade da nação, é o que o filme parece dizer, de modo que não é de surpreender que, mesmo na sua época, o filme tenha sido visto com indignação. Recebeu protestos da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês), gerou manifestações e, posteriormente, forçou o próprio Griffith a responder às críticas com seu ainda mais ambicioso Intolerância (1916). Ainda assim, o fato de O nascimento de uma nação continuar sendo respeitado e estudado até os dias de hoje – apesar do seu tema – revela sua duradoura importância.
Por Joshua Klein

EUA (D. W. Griffith & Epoch) 190 min. Mudo P&B
Direção: D. W. Griffith
Produção: D. W. Griffith
Roteiro: Frank E. Woods, D. W. Griffith, baseado nos livros The Clansman: An Historical Romance of the Ku Klux Klan e The Leopard's Spots e na peça The Clansman, de Thomas F. Dixon Jr.
Fotografia: G. W. Bitzer
Música: Joseph Carl Brell, D. W. Griffith
Elenco: Lillian Gish, Mae Marsh, Henry B. Waithall, Miriam Cooper, Mary Alden, Ralph Lewis, George Siegmann, Walter Long, Robert Harron, Wallace Reid, Joseph Henabery, Elmer Clifton, Josephine Crowell, Spottiswoode Aitken, George Beranger



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